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Meio a dormir, ainda sem ter recuperado a troca dos fusos horários a que a viagem intergaláctica me obrigou, li um simpático fax a solicitar a nossa presença para fazer a cobertura de um dos eventos mais importantes da Delegação Regional do Oeste e Berlengas da Associação dos Cegos e Amblíopes do Planeta Ómega.
Trabalho é trabalho e conhaque é conhaque... O Director deunos carta branca e o que quer é o trabalhinho feito. Preparate para mais uma viagem espacial. Será melhor tomarmos a pílula congelativa, para não nos render o tempo...
Só espero que essa droga termine a congelação no prazo indicado, que não quero virar carapau congelado para toda a vida.
***
De novo no Planeta Ómega, numa cidade à beira rio... Batemos à porta da Associação dos Cegos e a mesma voz no intercomunicador "xão xócios?", ao que respondemos que éramos os jornalistas do Planeta Terra, voltando a voz solícita: "Faxam favor!... faxam favor!."
Quando entrámos na sala, o Secretário da Mesa fazia a chamada:
José Aldra!
Presente.
Justo Atarracado!
Sim.
Valente Pasmado!
Estou cá.
E depois de ter chamado uns sessenta, o Presidente disse:
Muito boas tardes e vamos ao trabalho que se faz noite. Tem a palavra o Presidente da Direcção, o Sr. Túlio Benavides, que nos vai apresentar o relatório das actividades da Direcção relativas ao ano passado.
Eu quero usar da palavra Gritou detrás o Esticadinho Palrador.
Agora não tem a palavra ninguém, que ainda não abri as inscrições...
Tás a ver o mandão?! resmungou o Esticadinho para os colegas do lado. Espera aí que eu já lhe digo.
Do meio duma barulheira ensurdecedora, sobressaiu a voz esganiçada do Esticadinho.
Sr. Presidente, peço um ponto de ordem à mesa.
Ó Secretário, tenho de lhe dar a palavra ou não? perguntou o Presidente.
A mim pareceme que no capítulo quarto do Roque Laia...
Dáme a palavra ou não? É de lei... voltou a berrar o Esticadinho.
Deixate de capítulos disse o Presidente para o Secretário Vá lá, tem a palavra o Esticadinho para o ponto de ordem.
Pois eu só quero dizer à Mesa que não tem que dar primeiro a palavra à Direcção, porque eles não fizeram nada, andaram para aí a baratinar o tempo dos empregados e só querem aparecer nos jornais.
Ó Secretário, isto é um ponto de ordem?!
A mim pareceme mais um parêntesis... replicou o Secretário já baralhado.
Bem, bem... Ponto de ordem ou parêntesis quadrado, tem a palavra o Presidente da Direcção.
Boas tardes carosss xóxios, eu xó vos quero dixer que eu xou o que xou e xempre defendi estas ideias, já lá vão catorzze anos... Quem me quer axim, axim me tem... Quem não gosta, paxiênxia!...
Já cá fazia falta essa conversa fiada... Vai mas é ao que interessa... gritou o Tó Maioria sem pedir a palavra.
Senhores associados, assim não vamos a lado nenhum e não cumprimos a ordem de trabalhos.
Senhor Presidente, eu quero perguntar à Direcção porque é que subiu a imperial no bar. Isso é uma medida impopular e prepotente chutou de lá o Tonecas Barrigudo.
Ora essa, Senhor Presidente saltou em falsete para a liça a Georgina Chamiça. Anda, que não perguntas porque é que não há mais livros na biblioteca!
Um protesto, Senhor Presidente assoou doutro canto o Toni Fatela a Chamiça está a querer comparar alhos com bugalhos. Isso está fora da ordem de trabalhos e eu proponho que a bejeca torne a descer de preço. Se a Chamiça gosta mais de livros, que se empanturre com eles...
Calemse aí e deixem falar o homem!... Se vocês estivessem lá, ainda faziam bem pior!... disse o Valente Pasmado que é amigo do Presidente da Direcção.
Caros sócios disse o Presidente da Mesa vou perguntar ao Zé Aldra que é advogado, se a Direcção pode ou não aumentar os preços da cerveja.
A Direcção pode aumentar os preços, mas tem de se submeter à vontade da Assembleia que é soberana, como rezam os estatutos no artigo... não me lembro bem do número.
Muito bem, Aldra!... Então, quem vota a favor da baixa de preço da dita cuja?
Um protesto Sr. Presidente! gritou de novo em falsete a Chamiça. Eu proponho que se aumente a cerveja e se baixe o preço do copo de leite e da sanduíche. É preciso pensar nos sócios carenciados.
Pronto, pronto... disse o Presidente. Então quem vota a favor que se baixem os preços do bar? Ó Sr. Artur Frade, conte aí os votos!
Quarenta a favor e vinte contra respondeu maquinalmente o funcionário.
Agora não xe queixem que o bar dá prejuízzo! resmungou o Presidente da Direcção.
Bem! disse o Presidente da Mesa. Agora vamos ver o que pensa a Assembleia das actividades culturais.
Eu quero perguntar à Direcção a que se ficou a dever a baixa do número dos leitores das bibliotecas e a pouca comparência dos sócios no debate sobre "A Cultura da Polinésia"... voltou à carga a Chamiça, recém licenciada em Letras.
Já cá fazia falta essa doutorice toda!... Berrou o Tó Atarracado. Promovam mas é sardinhadas e bailaricos, que cá nos têm caídos a todos.
Ó Aldra, o que é que rezam os estatutos sobre este ponto? perguntou o Presidente.
Para mim os estatutos, neste ponto, são muito claros: a execução da política cultural cabe exclusivamente à Direcção...
Aldra!... Agora já te convém, advogado de meia tigela!... gritou o Valente Pasmado, procurando defender o amigo da Direcção.
Os momentos que se seguiram foram de grande rebuliço, até que a voz do Presidente da Mesa lá conseguiu sobreporse à imensa vozearia.
Caros sócios, é impossível prosseguir os trabalhos, cada um fala quando quer e por isso encerro a Assembleia e marco nova sessão para o próximo sábado.
Querida Mirosca, razão tinhas tu: no Benfica, na associação dos cegos, na Terra ou no Planeta Ómega, o problema é sempre o mesmo.
E a nossa missão é informar com isenção e objectividade.
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Caros leitores, marcamos encontro para o próximo número.
E não se esqueçam: dê para onde der, cá a Mirosca não vai desistir de andar "Em Cima do Acontecimento".
Revista "Luís Braille"
Ano VII nº 27 Outubro - Dezembro de 1997
Texto disponivel no site: http://www.acapo.pt/27luis08.htm
